Vale a pena tomar Ozempic ou Mounjaro? · T3 Tiago
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Composição corporal

Vale a pena tomar Ozempic ou Mounjaro?

01/10/20268 min de leitura

É uma pergunta que me fazem muitas vezes. Uns querem saber se resulta, outros se faz mal, outros se compensa o preço. Fui ver o que dizem os estudos, o que dizem as agências do medicamento e o que se passa em Portugal.

O que são

O GLP-1 é uma hormona que o intestino liberta quando comes. Diz ao pâncreas para soltar insulina, faz o estômago esvaziar mais devagar e manda ao cérebro o sinal de que já chega. A nossa dura menos de dois minutos no sangue.

Os análogos de GLP-1 são versões fabricadas desta hormona, alteradas para durarem muito mais. O semaglutido, por exemplo, dura cerca de uma semana, e por isso dá-se uma injeção por semana.

O efeito no peso vem daí: tens menos fome, sentes-te cheio mais depressa e acabas por comer menos.

Quais existem

Semaglutido. É o Ozempic (para a diabetes tipo 2), o Wegovy (para a obesidade) e o Rybelsus (comprimido para a diabetes). Em julho deste ano a Comissão Europeia aprovou também o Wegovy em comprimido, o primeiro GLP-1 oral para perder peso na Europa.

Tirzepatido. É o Mounjaro. Além do GLP-1, atua noutra hormona do intestino, o GIP. Está aprovado para a diabetes e para a obesidade.

Liraglutido. É o Saxenda. É mais antigo, toma-se todos os dias e faz perder menos peso do que os outros dois.

Orforglipron. Comprimido aprovado nos Estados Unidos em abril deste ano, com o nome Foundayo. Na Europa ainda não está à venda.

Retatrutido. Ainda em estudo. Atua em três hormonas em vez de uma ou duas. O pedido de aprovação nos Estados Unidos está previsto para 2027.

Quanto peso se perde

O estudo que lançou o Wegovy chama-se STEP 1. Quase 2000 adultos com excesso de peso ou obesidade, todos com aconselhamento de alimentação e exercício. Metade tomou semaglutido, a outra metade uma injeção igual mas sem nada lá dentro. Ao fim de 68 semanas, quem tomou o medicamento perdeu em média 14,9% do peso. Os outros perderam 2,4%. Metade dos que tomaram semaglutido perdeu 15% ou mais.

No estudo do Mounjaro, o SURMOUNT-1, a dose mais alta deu uma perda média de 20,9% em 72 semanas, contra 3,1% no grupo sem medicamento.

Em 2025 saiu o primeiro estudo a pôr os dois frente a frente, com 750 pessoas. O tirzepatido deu 20,2% de perda e o semaglutido 13,7%.

O Wegovy em comprimido deu perto de 17% em 64 semanas. O orforglipron deu 12,4% em 72 semanas. O retatrutido, no primeiro grande estudo, chegou aos 28,3% em 80 semanas na dose mais alta.

Estes números são médias. Há quem perca bastante mais e há quem perca pouco.

Para lá do peso

O estudo SELECT juntou 17 604 pessoas com doença cardíaca e excesso de peso, sem diabetes. Durante cerca de três anos e meio, quem tomou semaglutido teve menos 20% de enfartes, AVC e mortes por causa cardiovascular do que quem não tomou.

Efeitos secundários

Os mais comuns são do estômago e do intestino. No STEP 1:

Há também quem tenha dor de barriga, enfartamento ou refluxo.

Aparecem sobretudo no início e sempre que a dose sobe, e por isso a dose começa baixa e vai subindo ao longo de várias semanas. No Wegovy, chega-se à dose final ao fim de 16 semanas. As náuseas costumam acalmar com o tempo. No STEP 1, 7% das pessoas largaram o medicamento por causa dos efeitos secundários, contra 3% no outro grupo.

Há também efeitos mais raros:

Há ainda três cuidados práticos:

Há mais alguma coisa para lá da fome?

Se uma pessoa comesse exatamente o mesmo, sem tomar nada, perdia o mesmo peso?

Para responder com certeza era preciso um estudo com dois grupos a comer as mesmas calorias, controladas ao grama, durante meses. Um com o medicamento, outro sem. Não encontrei nenhum.

O mais provável é que não exista por duas razões. Para controlar as calorias ao grama, as pessoas teriam de viver meses numa unidade de investigação a comer só o que lhes dessem, porque em casa ninguém consegue contar ao certo o que come. É muito caro e difícil de manter. E as agências do medicamento não o pedem: para aprovar, chega mostrar que faz perder mais peso do que o placebo e que é seguro.

Os estudos que existem apontam todos no mesmo sentido.

Num estudo com semaglutido, o metabolismo em repouso, ajustado à massa magra, ficou igual ao de quem tomou placebo. As pessoas comeram menos e tiveram menos vontade de comer.

Num estudo de 2025 com tirzepatido, o gasto de energia baixou o que era de esperar para o peso que as pessoas perderam, nem mais nem menos.

Noutro estudo, pessoas com fígado gordo perderam o mesmo peso, umas com liraglutido e outras só com dieta e exercício. A composição do corpo mudou da mesma forma nos dois grupos. Quem tomou o medicamento teve melhores valores de açúcar e de gordura no sangue.

Com o que se sabe hoje, o peso perde-se por se comer menos.

E o músculo?

Quando se perde peso, perde-se gordura e perde-se massa magra. A massa magra inclui o músculo, mas também água e órgãos.

No STEP 1, cerca de 39% do peso perdido foi massa magra. No SURMOUNT-1 foi cerca de 25%. Nestes estudos não havia treino de força nem uma meta de proteína, e quem perde muito peso a comer pouco, sem treinar, perde sempre algum músculo.

As revisões publicadas recomendam treino de força e entre 1,2 e 1,6 g de proteína por quilo de peso por dia a quem toma estes medicamentos. Como tens menos fome, chegar a essa proteína dá mais trabalho do que parece. E com pouca fome é fácil passar a comer pouco demais, sem proteína, fruta e legumes suficientes.

Quando se para

No prolongamento do STEP 1, um ano depois de pararem o semaglutido, as pessoas tinham recuperado dois terços do peso que tinham perdido. A tensão arterial, o açúcar e o colesterol também voltaram para perto do que eram.

Em janeiro deste ano saiu no BMJ uma análise de 37 estudos. A estimativa dos autores foi que, depois de parar o semaglutido ou o tirzepatido, as pessoas voltam ao peso de partida em cerca de ano e meio. Ganham à volta de 0,4 kg por mês, quatro vezes mais depressa do que quem perdeu peso só com dieta e exercício.

Estes estudos medem o que acontece quando se para. Não medem porquê. A minha leitura é a mesma que faço para qualquer dieta: se nada mudou na forma como comes, nas escolhas que fazes e na relação que tens com a comida, mais cedo ou mais tarde voltas ao mesmo sítio.

Em Portugal

Precisas de receita médica. Na Europa, o Wegovy e o Mounjaro para perder peso são indicados a adultos com índice de massa corporal de 30 ou mais, ou de 27 ou mais com um problema de saúde ligado ao peso, como diabetes, tensão alta, colesterol alto ou apneia do sono. Fora destes critérios, para quem quer só perder uns quilos, não estão aprovados.

Para a obesidade não há comparticipação. O Ozempic só é comparticipado para a diabetes tipo 2. O Infarmed está a preparar um regime especial de comparticipação para a obesidade, mas em maio ainda não havia data.

Pagas o preço todo. Desde junho, o Wegovy custa cerca de 174 euros por mês na dose de 1,7 mg e 199 euros na de 2,4 mg. O Mounjaro anda entre cerca de 180 e 430 euros por mês, consoante a dose.

Na internet vendem-se canetas e frascos sem receita, e há quem venda "microdoses". O Infarmed lembra que estes medicamentos só podem ser comprados em farmácias. Já circularam canetas de Ozempic falsificadas na União Europeia, que podem não ter a substância ou ter outras que não deviam. Quanto às microdoses, não há nenhum estudo que mostre que funcionam.

O que eu digo a quem me pergunta

Para quem tem obesidade, são hoje os medicamentos mais eficazes para perder peso sem cirurgia. Os estudos são grandes, foram feitos em milhares de pessoas ao longo de anos, e os efeitos secundários estão bem descritos.

Quem toma continua a precisar de treinar força, de chegar à proteína e de aprender a comer.

Se estás a pensar tomar, fala com o teu médico, reúne estas informações e toma a decisão por ti. Deixei-te aqui as que encontrei.

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