Se tens um paladar infantil, emagrecer vai custar-te mais · T3 Tiago
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Nutrição

Se tens um paladar infantil, emagrecer vai custar-te mais

03/10/20264 min de leitura

Vou ser sincero contigo: se tens um paladar infantil, é muito difícil aguentares um processo de emagrecimento.

As calorias contam

Convém deixar isto claro. Sem défice calórico não há perda de gordura. Isso não muda.

Mas se um plano fosse só contas, uma nutricionista não precisava de estudar anos. Bastava saber fazer contas de somar.

Se o que queres é continuar a comer o mesmo que te trouxe até aqui, só que contado numa aplicação, não precisas de mim. Tens uma calculadora gratuita no meu site e fazes isso sozinho.

Até pode funcionar uns tempos. Até podes perder uns quilos.

Mas se nada mudar na forma como comes, nas escolhas que fazes e na relação que tens com a comida, mais cedo ou mais tarde voltas ao mesmo sítio.

O que é um paladar infantil

Chamo paladar infantil a quem só gosta de comida muito doce, muito salgada ou frita. Barras e pudins proteicos várias vezes ao dia, chocolate, cereais, molhos, snacks, bolos. Comida hiperpalatável, feita para saber sempre bem.

Legumes, peixe ou um alimento que nunca provou ficam logo de fora, muitas vezes sem os provar.

E há outro sinal: cada refeição tem de ser uma recompensa. Se não souber a sobremesa, parece castigo.

Com 5 anos, a comer só nuggets e Chocapic, ainda se percebia. Num adulto, é um hábito que se pode mudar.

Porque é que isto atrapalha

Primeiro, a comida que puxa por este paladar enche pouco para as calorias que tem. Comes, ficas com fome pouco depois e o défice custa mais.

Há um estudo que mostra bem isto. Em 2019, o Kevin Hall pôs 20 adultos internados num centro de investigação a comer duas semanas comida ultraprocessada e duas semanas comida pouco processada. Podiam comer o que quisessem. Com a ultraprocessada comeram, em média, cerca de 500 kcal a mais por dia e ganharam peso. É um estudo pequeno, mas mostra a diferença.

Segundo, quando a lista de alimentos que aceitas é curta, o plano fica curto. Comes as mesmas quatro ou cinco coisas e ao fim de umas semanas estás farto. A probabilidade de largares aumenta.

Nem todas as refeições têm de saber a sobremesa

Se cada refeição tem de ser uma recompensa, o plano vai custar-te sempre.

Olhas para o prato e só vês o que lá falta. O almoço sabe-te a pouco porque não tem molho. O jantar sabe-te a castigo porque não acaba com um pudim proteico. Passas o dia à espera da próxima coisa boa e, quando ela não vem, sentes que estás a perder alguma coisa.

Assim, a dieta torna-se uma luta todos os dias.

Quando deixas de esperar que cada refeição te saiba a sobremesa, comes, ficas bem e segues com o teu dia. A dieta fica muito mais fácil.

E o chocolate pode continuar a existir. De vez em quando, sem ser a razão pela qual chegas ao fim do dia.

O paladar educa-se

O paladar muda. Não é de um dia para o outro, mas muda.

Nos tempos em que me preparava para provas, cheguei a ter dietas à base de peixe e brócolos. Cada vez que tinha aveia com claras e ovos, aquilo sabia-me a sobremesa. A comida passou a ser apreciada de outra forma. Até a água Monchique me sabia a sumo.

A capacidade de apreciar o sabor dos alimentos é maior quando não bombardeamos o paladar com alimentos hiperpalatáveis.

A ciência vai no mesmo sentido. Num estudo de 2016 (Wise e colegas), um grupo de adultos reduziu o açúcar durante três meses. A partir do segundo mês, os pudins que provavam no laboratório já lhes sabiam mais doces do que ao grupo que comia como sempre. No terceiro mês, cerca de 40% mais doces. O quanto gostavam deles não mudou. Ou seja, o paladar ajustou-se, mas o gosto pelo doce não desapareceu.

Com o sal, um estudo mais antigo (Bertino e colegas, 1982) viu algo parecido: quem fez uma dieta com pouco sal durante uns meses passou a achar a comida mais salgada e a preferir menos sal.

E com os alimentos novos, os estudos em crianças mostram que muitas vezes são precisas várias provas até se começar a gostar. Em adultos há menos estudos, mas os que existem vão no mesmo sentido.

Não te estou a pedir para seres escravo de uma dieta.

Só não faz sentido seres escravo de todas as tuas vontades.

Mudar o corpo também é aprender a comer melhor. Experimentar coisas novas. Educar o paladar. Deixar de precisar que cada refeição seja uma recompensa.

Tu já não tens 5 anos. E consegues fazer melhor do que isso.

Queres um plano feito para ti, ajustado com os teus números?

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