O peixe lúcio · T3 Tiago
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Mente

O peixe lúcio

26/10/20263 min de leitura

Conta-se que em 1873 um zoólogo alemão, Karl Möbius, fez uma experiência com um lúcio, um peixe predador de água doce.

Meteu-o num aquário dividido a meio por um vidro transparente. Do outro lado, peixes pequenos.

O lúcio atirou-se a eles. Bateu no vidro. Voltou a atirar-se, vezes sem conta, sempre contra a mesma parede que não via. Até que desistiu.

Depois tiraram o vidro. Os peixes pequenos passavam-lhe à frente da boca e ele não se mexia. Há relatos de lúcios que morreram à fome com a comida mesmo ali.

Connosco passa-se o mesmo

Nos anos sessenta, dois investigadores, Martin Seligman e Steven Maier, puseram cães numa situação em que não conseguiam escapar a pequenos choques. Fizessem o que fizessem, nada mudava. Ao fim de algum tempo deixaram de tentar.

Depois puseram-nos numa caixa onde bastava saltar uma barreira baixa para escapar. A maioria nem tentou. Ficou deitada, à espera.

Chamaram-lhe desamparo aprendido. E quando estudaram o mesmo em pessoas, encontraram o mesmo padrão.

Tentamos uma vez, duas, três. Corre mal. E a cabeça guarda aquilo como uma verdade para sempre. A partir daí vivemos dentro desse limite sem voltar a confirmar se ele ainda existe.

Os vidros que trazemos

"Eu não sou bom a falar em público."

"Já não tenho idade para mudar de vida."

"Comigo as dietas nunca resultam."

"Nas relações, comigo nunca dá certo."

Muitas destas frases nasceram de uma vez que correu mal, há dez, quinze, vinte anos. Entretanto mudaste, aprendeste, ganhaste ferramentas que não tinhas. Mas continuas a respeitar o vidro.

E nós ainda somos piores que o lúcio. Arranjamos bons argumentos para o defender. Ao ponto de nos convencermos de que é a nossa maneira de ser.

Como dar pelo vidro

O primeiro sinal está na forma como falas de ti. Frases que começam por "eu não sou", "eu nunca" ou "comigo não" merecem uma segunda olhadela.

Depois, uma pergunta simples: quando foi a última vez que tentaste? Se a resposta for há muitos anos, estás a decidir com informação velha.

O lúcio não tinha como saber que o vidro já lá não estava. Tu tens. Escolhe uma dessas frases e volta a pôr à prova aquilo que davas como impossível, agora com quem és hoje. Começa pequeno e vê o que acontece.

E fica com a pergunta: em que parte da tua vida é que ainda estás a bater num vidro que já não existe?

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