Isso não é reposição, é um ciclo · T3 Tiago
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Hormonas

Isso não é reposição, é um ciclo

26/08/20268 min de leitura

Há cada vez mais homens a dizer-me que andam só numa dose baixa de testosterona. E por vezes cometem o erro de lhe chamar TRT (terapia de reposição hormonal). Se o homem não tem valores baixos de testosterona e os respetivos sintomas, não há nada para repor.

Dito de outra forma: se o teu corpo produz testosterona e aquilo que queres é ter níveis maiores, não estamos a falar de reposição mas sim de um ciclo.

E antes de avançar, não há qualquer moralismo deste lado. Vamos apenas chamar as coisas pelo que são, sem ilusões.

O que é reposição, com números

O teu corpo produz alguma coisa entre 3 e 10 mg de testosterona por dia, conforme a pessoa. Num trabalho do Vierhapper publicado no Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism em 1997, a média deu 3,7 mg por dia.

Uma dose de reposição existe para substituir essa produção e não para a ultrapassar. Na prática são 75 a 100 mg por semana de testosterona injetável, com um objetivo definido: pôr-te no meio do intervalo normal, à volta de 400 a 700 ng/dL nas análises. E só se justifica quando há duas coisas ao mesmo tempo: análises de manhã, repetidas, com valores baixos (a referência habitual é abaixo de 300 ng/dL) e sintomas por trás, como libido em baixo, disfunção erétil, cansaço constante, mau humor, perda de massa muscular e de força. Isto é o que dizem as normas da Endocrine Society, a sociedade internacional de endocrinologia, na revisão de 2018.

Um homem com 280 ng/dL e sem queixa nenhuma não é candidato a reposição.

Em quem se faz

Em ex-utilizadores de anabolizantes cujo corpo deixou de conseguir produzir, como é o meu caso. Em homens novos que aparecem na consulta com hipogonadismo grave. O uso passado de anabolizantes é hoje a causa mais comum, e a recuperação é uma lotaria: a maioria volta aos valores próprios em 1 a 2 anos depois de parar, e há uma parte que nunca volta. Um estudo dinamarquês publicado na PLOS One em 2016 foi ver ex-utilizadores anos depois de terem parado e encontrou-os ainda com testosterona baixa e com os sintomas todos.

Em homens com problemas nos próprios testículos: doenças genéticas como a síndrome de Klinefelter, sequelas de infeções, traumatismos, quimioterapia. Ou com problemas na hipófise, a glândula que dá a ordem de produção.

E nos homens mais velhos que cumprem os mesmos requisitos. A testosterona vai descendo com a idade, a partir dos 30 e poucos, qualquer coisa como 1% ao ano no estudo de referência sobre isto, o Baltimore Longitudinal Study of Aging, publicado por Harman em 2001. Aos 60, 70 anos, há homens que estão de facto abaixo do limiar e com sintomas, e esses são candidatos a reposição como qualquer outro. Repara que a régua é a mesma, análises repetidas em baixo mais sintomas. Ter 55 anos e sentir-se com menos energia do que aos 25, do ponto de vista clínico não é suficiente para reposição.

E o que é então um "ciclo de dose baixa"

Quem começa a usar química costuma partir de 250 mg de testosterona por semana. Parece pouco quando se ouve dizer, sobretudo ao lado das doses de quem compete.

Faz a conta comigo. 250 mg por semana são cerca de 36 mg por dia, e como parte do peso da ampola é o éster, o que entra em testosterona são uns 26 mg por dia. O teu corpo faz 3,7. Estamos a falar de sete vezes o que produzes, e o dobro do que qualquer reposição jamais te daria.

Não há nada de "baixo" nisto. É a dose inicial de um ciclo, e chama-se baixa apenas em comparação com as doses de quem já vai a meio do caminho.

O que acontece quando metes testosterona de fora

O teu corpo controla a produção com um sistema de aviso. O cérebro mede quanta testosterona anda a circular e manda ordens aos testículos através de duas hormonas, a LH e a FSH. Quando aparece testosterona vinda de fora, o cérebro lê níveis altos e deixa de mandar a ordem. Sem ordem, os testículos param a produção própria e param também de fabricar esperma.

Isto não é um risco que talvez aconteça. É o efeito garantido, e é tão fiável que já se tentou usar testosterona como contracetivo masculino. A Organização Mundial de Saúde fez esse ensaio nos anos 90: 200 mg de testosterona por semana levaram cerca de três quartos dos homens a ficar sem espermatozoides nenhuns ao fim de seis meses. Repara na dose, que é menos do que os 250 mg de que falámos.

Daí vêm duas consequências que se veem a olho. Os testículos encolhem, porque deixaram de ter trabalho. E a fertilidade desaparece enquanto durar, com o tempo médio até à contagem chegar a zero a rondar os três meses e meio.

Na reposição feita com acompanhamento médico isto também acontece, e é por isso que um homem que ainda queira ter filhos tem de falar disso com o médico antes de começar. Há formas de proteger a produção de esperma durante o tratamento, como a hCG, que imita a ordem que o cérebro deixou de dar.

A diferença entre os dois casos está no ponto de partida. Quem faz reposição já não produzia, e o sistema já estava desligado antes de começar. Quem faz um ciclo produzia normalmente e desliga um sistema que estava a funcionar, a contar voltar a ligá-lo quando parar. Às vezes volta. Foi a apostar nisso que eu fiquei sem produção própria para o resto da vida.

Os riscos não são os mesmos nos dois casos

A reposição, bem feita nos homens que necessitam, já foi estudada. O ensaio TRAVERSE, publicado no New England Journal of Medicine em 2023, acompanhou 5.246 homens com hipogonadismo e risco cardiovascular alto, e a testosterona não deu mais enfartes, nem mais AVC nem mais mortes do que o placebo.

Nas doses de ciclo o retrato é outro.

Coração. Em 2017 o Baggish publicou na Circulation um trabalho com 140 levantadores de pesos experientes, 86 deles utilizadores. O coração bombeava pior nos utilizadores, com fração de ejeção média de 52% contra 63% nos que nunca usaram, e 49% em quem estava a usar na altura do exame. Tinham também mais placa nas artérias coronárias. O estudo holandês HAARLEM mostrou que a função do ventrículo esquerdo melhora depois de parar. A placa nas coronárias não desaparece.

Rins. Em 2010 uma equipa publicou no Journal of the American Society of Nephrology dez casos de culturistas com anos de uso: perda grave de proteína pela urina e insuficiência renal, com as biópsias a mostrar glomerulosclerose segmentar focal, uma cicatriz no filtro do rim. A maioria melhorou depois de parar e perder peso, mas nem todos.

Cérebro. A norueguesa Astrid Bjørnebekk estudou o cérebro de 130 utilizadores de longa data com ressonância magnética e encontrou menos volume cerebral e córtex mais fino do que em levantadores de pesos que nunca usaram. Num trabalho seguinte, usou modelos treinados em quase 1.900 homens saudáveis para estimar a idade de um cérebro pelas imagens: o cérebro dos utilizadores aparecia mais velho do que a idade deles.

Sono e limpeza do cérebro. Durante o sono, o espaço entre as células do cérebro aumenta cerca de 60% e o cérebro aproveita para lavar o lixo que acumulou durante o dia, incluindo a proteína beta-amiloide, a mesma que se acumula na doença de Alzheimer. Chama-se sistema glinfático e foi descrito num trabalho do Xie publicado na Science em 2013. Uma revisão de 2019, na Neuroscience and Biobehavioral Reviews, levantou a hipótese de o uso de doses altas favorecer a acumulação dessas proteínas e aumentar o risco de demência anos mais tarde. É uma hipótese em cima de mecanismos, não um resultado provado em pessoas. O que está estabelecido é a outra ponta: quem usa dorme pior, e o sono é quando esta limpeza acontece.

Cabeça e comportamento. O ensaio do Pope, publicado nos Archives of General Psychiatry em 2000, deu 600 mg de testosterona por semana ou placebo a 56 homens, sem eles nem os investigadores saberem o que estavam a receber. A maior parte dos homens não sentiu grande coisa. Um grupo pequeno ficou ligeiramente acelerado: mais irritável, a dormir menos, com a cabeça a mil. E um grupo ainda mais pequeno teve uma reação forte, com irritabilidade, agressividade medida em testes e comportamento que os investigadores classificaram como hipomania, que é um estado de excitação em que a pessoa fica exaltada, impulsiva e com pavio curto. Não há forma de saber de antemão em qual destes grupos vais cair.

Sobre o tempo de uso. O dano acompanha o total acumulado ao longo da vida, não o pico da dose. No trabalho do Baggish, a placa nas coronárias subia com cada dez anos de uso acumulado, e nos dados dinamarqueses mais recentes as alterações eram mais marcadas em quem tinha mais de cinco anos de uso. Uma dose baixa mantida durante anos é uma exposição longa, e nisso não tem nada de mais seguro do que um ciclo curto.

O resto da lista vale para os dois casos, com gravidade diferente conforme a dose: o sangue engrossa e o hematócrito sobe, a tensão arterial sobe, o colesterol bom desce, aparece acne, e há quem desenvolva tecido mamário. Na reposição isto vigia-se com análises de rotina e ajusta-se a dose. Num ciclo comprado pela internet não se vigia nada.

As clínicas que vendem o nome

Há uma indústria a viver desta confusão. Clínicas online que te fazem umas perguntas, pedem umas análises e mandam testosterona para casa com o rótulo de tratamento.

Foram estudadas. Em 2023, na JAMA Internal Medicine, uma equipa liderada pelo urologista Justin Dubin fez-se passar por doente em sete plataformas americanas de saúde masculina. O doente fictício tinha testosterona normal e dizia que queria ter filhos em breve. Seis das sete ofereceram-lhe testosterona à mesma. Cerca de metade dos profissionais não o avisou de que aquilo lhe ia estragar a fertilidade.

O modelo de negócio explica o resultado. A consulta é barata ou grátis, e o dinheiro vem da venda do produto. Quem te avalia é quem te vende.

Uma receita não transforma um ciclo em tratamento. O que define reposição é o diagnóstico por trás dela: análises repetidas em baixo, sintomas, e alguém a acompanhar-te que não ganha mais por te vender mais.

O que eu digo a quem me pergunta

Mostra-me as análises. Não as de uma tarde qualquer, as de duas manhãs diferentes, feitas em jejum. E diz-me o que sentes.

Quem me faz esta pergunta costuma ter trinta e poucos anos e análises normais. Dorme cinco horas por noite, treina sem plano há dois anos e come mal.

Isso conta. Uma semana a dormir cinco horas por noite chega para baixar a testosterona de homens novos e saudáveis, num trabalho da Van Cauter publicado na JAMA em 2011. O sono, a comida e o treino mexem nos valores.

Se as análises estiverem mesmo em baixo e os sintomas lá estiverem, o caminho é um médico. Endocrinologista ou urologista, não uma clínica online que vive de passar receitas.

E se a decisão for usar química sabendo o que é, sem lhe chamar tratamento, é uma decisão de adulto e não sou eu que a vou tomar por ninguém. Só quero que se saiba a diferença. Repor o que falta e somar ao que já existe não é a mesma coisa.

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