No reel em que falei do Ozempic, a Bárbara deixou um comentário que merece mais do que uma resposta.
Foi desportista em nova. Hoje, na casa dos 50, tem obesidade. Há um ano começou a tomar injeções de Victoza e perdeu 30 kg em 7 meses.
Mas não foi a única coisa que perdeu.
No primeiro dia, deu a injeção às 11h. Ao meio-dia comeu uma taça de sopa. Às 14h passou duas horas a vomitar.
Durante os 7 meses, a fome desapareceu por completo. Nas palavras dela, no máximo conseguia comer "uma colher de sopa de alimento por dia". Mais do que isso, vomitava.
Começou a perder cabelo. Teve problemas nos dentes, unhas a partir, flacidez, perda de memória e ficou apática. Perdeu massa muscular.
Ao fim dos 7 meses, o medicamento deixou de estar disponível nas farmácias. Ela achou que tinha força de vontade para continuar sozinha, com reeducação alimentar. Não conseguiu.
O peso voltou todo.
Não sou médico e não conheço o caso dela para além do que contou. Mas cabelo a cair, unhas fracas, músculo perdido e falta de energia são o que se espera de quem passa meses sem comer calorias nem nutrientes suficientes.
E quando se perde peso a comer quase nada e sem treinar, perde-se sempre músculo. No STEP 1, um estudo grande do semaglutido sem treino de força nem meta de proteína, perto de 39% do peso perdido foi massa magra.
O que aconteceu à Bárbara quando parou também está nos estudos. No prolongamento do STEP 1, um ano depois de pararem o semaglutido, as pessoas tinham recuperado dois terços do peso perdido.
Os estudos medem o que acontece. Não medem porquê. A minha leitura é a de sempre: se nada mudou na forma como comes, nas escolhas que fazes e na relação que tens com a comida, mais cedo ou mais tarde voltas ao mesmo sítio.
E é difícil aprender a comer quando se passa 7 meses sem conseguir comer.
É isto que mais me faz pensar.
O Victoza é liraglutido, a mesma substância do Saxenda. Na bula, começa-se com uma dose baixa e sobe-se aos poucos, semana a semana, precisamente para o estômago se habituar. As náuseas e os vómitos são dos efeitos mais comuns e costumam passar com o tempo. A bula do Saxenda diz que, se uma subida de dose não for tolerada durante duas semanas seguidas, deve considerar-se parar o tratamento.
Por isso pergunto:
Alguma vez se pensou em baixar a dose ou trocar de medicamento?
Alguma vez se teve em conta que ela não conseguia comer?
Alguém lhe sugeriu procurar uma nutricionista, para comer pelo menos o mínimo de que precisava para estar saudável?
Não sei as respostas. Só sei o que ela contou.
Falo muitas vezes aqui da responsabilidade individual. E ao ver situações como esta, ainda reforço mais a necessidade de assumirmos as rédeas da nossa vida e da nossa saúde.
Mas, caraças, neste caso a responsabilidade não pode estar só do lado dela.
Quem procura ajuda para perder peso, seja com medicamento ou sem ele, precisa de alguém que olhe para além da balança. Que veja se está a comer o suficiente, se está a perder músculo e se está a aprender alguma coisa que fique para quando o tratamento acabar.
Estes medicamentos podem ajudar muita gente. Mas sem comer o mínimo, sem treino de força e sem aprender a comer, o mais provável é o peso voltar.
Obrigado, Bárbara, por teres partilhado.
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