«O meu corpo responde bem ao sushi.»
Quem me disse isto treina no mesmo ginásio que eu. Está em corte, naquela fase chata em que a fome aperta e a energia já não é tanta. Fez uma refeição livre ao fim de semana, sushi, e no dia seguinte apareceu no treino com um pump enorme. Estava convencido de que tinha descoberto um segredo.
E eu entendo a confusão, porque já disse coisas parecidas.
Uns dias depois, outro homem contou-me uma versão diferente da mesma ideia. Quando era mais disciplinado, comia aveia e claras ao pequeno-almoço e rendia mais no treino. Agora come uma fruta e um iogurte e o treino não sai igual. Para ele, a explicação estava na aveia.
Este homem sabia imensa coisa. Discutia métodos de treino, o número certo de refeições, esses pormenores todos. Agora perguntas-lhe quanto come por dia e quanto precisa de comer para o objetivo que tem, e não sabe. E é aí que a casa cai.
Semanas em défice deixam os depósitos de glicogénio em baixo (o glicogénio é energia guardada dentro do músculo). Uma jantarada de sushi traz muita caloria, muito hidrato e muito sal ao mesmo tempo. O hidrato volta a encher esses depósitos, o sal segura água, o músculo fica mais cheio e congestiona mais no treino do dia seguinte. E já está. Não há mais mistério nenhum.
Se ele tivesse comido massa com frango com os mesmos números, o pump era igual.
Na aveia, a mesma coisa: nessa altura ele comia bastante mais ao longo do dia. Hoje chega ao treino com uma fruta e um iogurte no corpo. Claro que rendia mais. Tinha combustível.
Tu sentes o pump, sentes o rendimento, sentes o inchaço. As calorias, os hidratos e o sal, esses não os vês. Então a cabeça agarra-se ao que consegue nomear, que é o alimento que estava no prato nesse dia. Foi o sushi. Foi a aveia. Pronto, nasceu a crença.
O perigo é quando a crença começa a mandar. Imagina que o rapaz concluía que devia comer sushi todos os dias para andar sempre com pump. A água retida começava a tapar-lhe a definição e saía do défice sem dar por ela. Lá se ia o objetivo de ficar seco.
Estas crenças jogam mais contra ti do que a teu favor, e crescem sempre no mesmo terreno: quando não sabes a lógica daquilo que estás a fazer.
(Atenção: intolerâncias e problemas digestivos diagnosticados são outro assunto. Isso trata-se com o médico, não comigo.)
Achas que um alimento te faz alguma coisa, boa ou má? Repete o efeito com outra comida e os mesmos números. As mesmas calorias, o mesmo hidrato, o mesmo sal. Se sentires o mesmo, já sabes onde estava o poder. Em vinte anos disto ainda não vi este teste falhar.
Sabe quanto comes. Pesar a comida dá-te essa resposta, e custa muito menos do que parece. Depois sabe quanto precisas: tens uma calculadora gratuita aqui no site que faz essa conta em dois minutos. E depois enche esses números com comida de que gostes.
O sushi fica bem onde sempre esteve: numa refeição livre de vez em quando. Só não lhe peças milagres. Aquilo é peixe e arroz, não é feiticeiro.
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