Muita gente acha que é de uma certa maneira e pronto. "Sou assim." Mas quando olhas para o que formou essa maneira de ser, percebes que não é bem assim.
A tua identidade foi construída por várias coisas. O ambiente onde cresceste, as pessoas com quem andaste, as coisas que te aconteceram, os traços com que nasceste e muitos desejos que foste copiando dos outros sem dares por isso.
A maior parte disto não foi escolhida por ti. Não escolheste os teus pais, a tua cidade nem o teu temperamento. Mas isso não quer dizer que a tua identidade esteja fechada.
A ciência mostra que a personalidade muda ao longo da vida. Investigadores de Edimburgo foram ter com pessoas avaliadas pelos professores aos 14 anos, em 1947, e voltaram a avaliá-las aos 77. Não encontraram praticamente nenhuma ligação entre a personalidade de uma idade e a da outra.
E há estudos que mostram que é possível mudar de forma intencional. Mas com uma condição: só muda quem age. Num estudo de 2019, aceitar desafios para mudar não chegou. Só mudou quem os cumpriu.
Porque é que isto importa? Porque a forma como te vês define a forma como pensas e como atuas. Se te vês como alguém que não consegue, vais agir como alguém que não consegue.
Toda a identidade serve um propósito. Às vezes esse propósito é proteger-te de uma dor.
Imagina alguém com excesso de peso. Pode ter uma série de explicações: a genética, o trabalho, a falta de tempo, os filhos. Algumas até podem ser verdade. Mas no conjunto servem para uma coisa: sentir-se melhor com a situação sem ter de a mudar. A mente faz isto sozinha. Quando aquilo que fazes não bate certo com aquilo que gostavas de ser, ela arranja justificações para aliviar o desconforto. A psicologia chama-lhe dissonância cognitiva.
Isto não é uma escolha consciente. A pessoa não acorda e decide ser vítima. Mas a partir do momento em que vês o que está a acontecer, passa a ser uma escolha. Podes continuar com a mesma história, ou podes usar a mesma situação para outro propósito: mudar.
E a mudança não começa por te convenceres de que és outra pessoa. Começa pelo que fazes. Quem treina três vezes por semana durante uns meses começa a ver-se como alguém que treina. A identidade nova vem das ações repetidas, não o contrário.
O ambiente ajuda. Se mudares as pessoas com quem estás, o que consomes, os sítios onde passas tempo, vais mudar. Mas não chega mudar de cidade se levares os mesmos hábitos contigo.
Eu próprio assumi vários papéis ao longo da vida. Fui atleta de culturismo, pianista, escritor, preparador de atletas, empresário, nómada digital. Cada um serviu para o que eu precisava naquela fase. Quando deixaram de servir, mudei-os.
No yoga há uma ideia parecida. As experiências e as repetições deixam marcas que criam tendências. Aquilo a que chamas "a tua maneira de ser" é, em grande parte, um acumulado de hábitos.
Mas o yoga vai mais longe e diz que não és nenhuma dessas personagens. Nem a antiga nem a nova. Isso fica para outro texto.
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