Em 2019 escrevi uma coisa que ainda hoje uso para explicar quase tudo o que faço.
Imagina uma bola de neve a descer uma encosta. A cada volta apanha mais neve, fica maior, fica mais pesada. E essa neve passa a fazer parte dela.
Connosco passa-se o mesmo. Ninguém acorda deprimido de um dia para o outro. E ninguém acorda em forma de um dia para o outro. O corpo que tens hoje, a relação que tens com a comida, a facilidade com que desistes ou insistes, foi tudo neve a juntar-se, volta após volta, durante anos.
Há neve que nem escolheste. A família em que calhaste. O sítio onde cresceste. O que te disseram que eras. As conclusões que tiraste num dia mau e que ficaram.
"Na nossa família somos todos assim."
"Eu nunca tive jeito para o desporto."
"Eu até como bem."
Ouves isto vezes suficientes e passa a viver a tua vida por ti.
A genética também conta. Costuma dizer-se que a genética carrega a arma e o ambiente puxa o gatilho. E o ambiente depende muito mais de ti do que parece: o que deixas entrar, com quem andas, o que repetes a ti próprio.
Se olhares para um dia meu, não vais encontrar nada de extraordinário.
O dia começa com o Artur. Depois café e trabalho, cedo. Treino durante a semana, e jiu-jitsu, onde ainda levo muito. Como fora de casa quando calha. Janto com amigos. E ao fim do dia paro um bocado.
São coisas banais. Faço-as quase todos os dias, há muito tempo, e são elas que mantêm a vida que tenho hoje.
Com o teu processo é igual. O que vai mudar o teu corpo é aquilo que repetes até já nem pensares nisso.
Um estudo de 2010, da University College London, acompanhou pessoas a criar um hábito novo. Em média, foram precisos 66 dias até o hábito sair sem esforço. Houve quem precisasse de 18 e houve quem precisasse de 254. E falhar um dia pelo meio não estragou nada.
O que se acumulou durante anos não desaparece em semanas.
Por isso, o que a balança mostra de uma semana para a outra diz pouco. O peso sobe e desce por muitas razões: a água, o sal, o que comeste na véspera. O que interessa é para onde vai ao longo de várias semanas.
E é também por isso que não te prometo prazos em quilos.
Mas o contrário também é verdade: o que começares a fazer hoje, se o repetires, fica.
Escolhe uma coisa pequena. Tão pequena que não haja desculpa para não a fazer. Dez minutos a caminhar depois do jantar. Uma peça de fruta por dia. Deitares-te vinte minutos mais cedo.
Repete-a sete dias seguidos. Se falhares um, continuas no dia seguinte.
E fica com a pergunta: que neve andas a juntar, todos os dias, sem dares por ela?
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